:: Geração Coca-cola – O depoimento de um rebelde comedido




“Quando nascemos fomos programados

Pra receber de vocês

Nos empurraram com os enlatados

Dos U.S.A., de nove as seis

Desde pequenos nos comemos lixo

Comercial e industrial

Mas agora chegou nossa vez

Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

Somos os filhos da revolução

Somos burgueses sem religião

Somos o futuro da nação

Geração Coca-Cola

Depois de 20 anos na escola

Não é difícil aprender

Todas as manhas do seu jogo sujo

Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa

E aí então vocês vão ver

Suas crianças derrubando reis

Fazer comédia no cinema com as suas leis

Somos os filhos da revolução

Somos burgueses sem religião

Somos o futuro da nação

Geração Coca-Cola

Geração Coca-Cola

Geração Coca-Cola

Geração Coca-Cola”

Créditos: Legião Urbana





Era 1985 com muito esforço consegui passar numa escola pública onde as elites estudavam. Na época o grande incentivo era o estudo de eletrônica, principalmente voltados para o domínio das técnicas científicas na produção de computadores portáteis.

O modelo político de crescimento estava falido. O crescimento econômico não estava acompanhando o crescimento populacional. A elite do país queria poder ter uma maior liberdade encontrada na Europa Ocidental e Estados Unidos da América.

Por outro lado a União Soviética infiltrava idéias nas camadas mais cultas do país, principalmente nas elites brasileiras ligadas à cultura, esporte e classe operária. Os ideais de igualdade, união e fraternidade eram repassados para os grêmios estudantis por correntes políticas vigiadas pelos militares (autoridades locais) e impunha limites de conduta e ordem.



“ORDEM E PROGRESSO”





O mundo capitalista também não estava mais interessado nos bloqueios comerciais de seus produtos e influenciava a elite capitalista do país que tivesse interesse a buscar uma nova forma de governo que atendesse aos seus propósitos comerciais.

O cenário era este: famílias numerosas com poucas perspectivas de desenvolvimento humano, correntes políticas contrárias separando a opinião dos que tinham recursos financeiros e dos que não tinham boas condições de vida.



“ABAIXO A OPRESSÃO”





Então o slogan foi: QUEREMOS PODER ESCOLHER! Mas todos divididos entre as duas grandes correntes que planejavam a “SALVAÇãO” do povo brasileiro. Interesse comercial do lado capitalista e interesse geopolítico do lado socialista.

Nós estudantes, dos 13 aos 18 anos, influenciados pelos Grêmios Estudantis formos à rua. Primeiro porque o transporte público estava caro demais para nosso poder aquisitivo, em segundo lugar para exigir melhores condições de educação até que a REVOLUÇãO migrou para exigir que o país tivesse “DEMOCRACIA”.



“A BURGUESIA FEDE...”





Então surge a TEORIA DA DOMINAÇãO DO TERCEIRO MUNDO, onde de um lado: “COMUNISTA COME CRIANCINHA” e do outro “A BURGUESIA SE APROPRIA DO SEU TRABALHO”. Em quem acreditar?

“Somos os filhos da revolução

Somos burgueses sem religião

Somos o futuro da nação

Geração Coca-Cola”

Interesses à parte, eu sei que quando participava de grandes e médias manifestações ficava sempre próximo aos policiais por acreditar que estava mais seguro não fazendo parte da “turma que gostava de baderna: quebrar carros, vidraças, queimar pneus,...” Mas os organizadores do evento embutiam a opinião de que os policiais eram: “SERES OPRESSORES À MANDO DA ESTRUTURA DOMINANTE” que o melhor para nós que fazíamos nossas manifestações de forma ordeira era ficar no núcleo do grupo para não correr o risco de sermos “espancados” pelos policiais que acompanhavam a multidão.

A televisão era a grande aliada do CAPITALISMO. Tentava a todo o custo passar a impressão que a liberdade de escolha estava associada a poder adquirir bens e trazia progresso e felicidade aos lares.



“O CONSUMO ERA A SAÍDA” versus “CONSUMIR PARA QUE?”





Então as classes operárias politizadas e os movimentos estudantis começaram a combater em grau de igualdade as grandes corporações internacionais, os grandes bancos, as emissoras de TV que queriam passar o modo capitalista de viver e os militares.

Nós sabíamos que o princípio socialista era uma bandeira muito bela, porém aos poucos os responsáveis por difundir a ideologia, certos que tudo caminhava para uma REVOLUÇãO, começaram a repartir o poder entre si gerando núcleos de influência em torno de nomes que foram progressivamente se destacando até chegar a um nível nacional.



“VIVA A DEMOCRACIA”





E os militares cederam e marcaram eleições diretas, não antes de garantirem para si a liberdade de não passarem por tribunais que pudessem levá-los a responder por seus “crimes” que afirmavam as duas correntes ideológicas que queriam substituir o poder.

O certo é que os militares também não queriam os comunistas no poder então garantiram que o equilíbrio de forças pendesse para o lado capitalista manipulando as fontes de informações, as oligarquias no interior do Brasil e o conteúdo programático do que era ensinado nas escolas.

Quando Tancredo Neves ganhou a eleição direta finalmente a população em sinal de alegria transgrediu uma lei militar que impedia o uso da buzina que não fosse estritamente necessária. Mas passadas algumas horas surge a informação que o “Herói” foi hospitalizado.



“A ESPERANÇA QUE SE INICIA NÃO SiLENCIA”





E o representando do povo direto, mas não de forma direta, morre. Rumores por todos os lados de um novo golpe militar espalham por Brasília. A oposição fica atenta e negocia com os militares a continuidade do processo até chegar à formação de uma nova CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA que atenda os desejos da “POPULAÇãO”, mas que na realidade atenda ao desejo do capitalismo internacional ganhador do núcleo de influência geo-econômica.

Para não gerar um racha nas duas correntes opostas, pela ocasião, chegou-se a um acordo político que seria tolerado a PLURALIDADE PARTIDÁRIA nos quais diferentes formas de pensamento agora poderiam viver juntas sem que uma subtraia a outra.

A constituição é formada. A geração Coca-cola está em festa embora não tenha conseguido o comunismo ou o socialismo, mas havia uma esperança de num futuro próximo ver seu desejo cristalizado na forma de um presidente da república que a representasse.



“UNIDOS VENCEREMOS”





No princípio as idéias dos políticos são fortes e quer arrebanhar o povo. Surgem muitos SALVADORES DA PÁTRIA, EU FAÇO ACONTECER, COMIGO NÍNGUEM PODE, CREIA EM MIM e o “unidos venceremos” ficou apagado lá no canto esperando sua vez.

Com o tempo o povo começa a aprender a votar, pois no início só ganhavam SUPER HERÓIS que prometiam mundos e fundos. As pessoas foram se tornando mais céticas e descrentes da classe política, mas o trabalho de base dos primeiros políticos eleitos após a ditadura foi tão perfeito que ninguém, ou quase ninguém, queria saber de voltar o tempo da ditadura.



“SOMOS UMA NAÇÃO SOLIDÁRIA”





Hoje o SISTEMA POLÍTICO está falido, porém a DEMOCRACIA está viva. As instituições públicas ainda têm grande respeitabilidade, mas os governantes são alvos de todo descrédito por parte da população. Pelos seguintes motivos: uma grande parte dos políticos visou ao chegar ao poder o lucro pessoal, o tráfego de influência criou comuns privilegiados em várias esferas, a expectativa pela democracia gerada no início do processo democrático foi lenta e não acompanhou os anseios da população, o salário pago para grande massa de trabalhadores é ainda deficitária, a aposentadoria é baixa e cada vez é mais elevada a idade para adquirir o benefício, grande número de pessoas abaixo da linha de pobreza,...

Max Diniz Cruzeiro



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