ministério da cultura

:: Do percurso do trem da história, algumas paisagens


DO PERCURSO DO TREM DA HISTÓRIA, ALGUMAS PAISAGENS

Por Abilio Ferreira

 

Sob o blusão, sob a blusa
Nas encostas lisas do monte do peito
Dedos alegres e afoitos
Se apressam em busca do pico do peito
De onde os efeitos gozosos
Das ondas de prazer se propagarão
Por toda essa terra amiga
Desde a serra da barriga
Às grutas do coração

(Índigo blue Gilberto Gil, 1984) 


As casas tão verde e rosa
Que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul
Quase inexistente azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar

(Trem das cores – Caetano Veloso, 1982)

Entre as inumeráveis, arrebatadoras e surpreendentes imagens construídas por esses dois baianos geniais, essas são, talvez, as que mais traduzem, de forma completa e perfeita, as possibilidades metafóricas da experiência humana. O azul, cor associada à frieza, à depressão e à monotonia, mas também representante da paz, da ordem e da harmonia, tem sido desde muito tempo presença constante nas formulações dos trabalhadores da linguagem.

Em Caetano, é pura memória de algum lugar, que de tão pessoal e intransferível chega a quase não existir. Em Gil, o azul (índigo blue) é a cor da indumentária industrializada, sob a qual o corpo e a terra ganham uma única e mesma dimensão, e se transformam em objetos de uma alegre e afoita exploração (no sentido da investigação), que resultará em ondas de prazer a se propagar, a partir da serra da barriga – local onde se instalou o Quilombo de Palmares, a primeira e maior experiência libertária da história do Brasil – por todo o corpo-planeta agora reapropriado. 

O trem, veículo que trafega no espaço e no tempo, também é imagem recorrente, a transportar as nossas fantasias e inquietações em meio às planícies e acidentes dessa nossa terra amiga, em torno da qual dialogam nossas lembranças mais íntimas e as paisagens mais distantes.

E entre as cores do trem de Caetano, que acaba de partir, há também O oliva da nuvem chumbo ficando / Pra trás da manhã / E a seda azul do papel / Que envolve a maçã. A bordo, crianças cor de romã representando a esperança num mundo novo, que deixou mergulhado nas trevas da noite o verde oliva, nuvem chumbo da dolorosa experiência militar ainda hoje surtindo os seus efeitos. Só depois disso, depois dessa preparação necessária, é que o trem percorre o território das casas tão verde e rosa. Seria, talvez, o território da famosa Estação Primeira de Mangueira, território do poder de superação de um povo secularmente submetido a tentativas de extermínio em massa.

A viagem, pois, sobre trilhos, é figura tão emblemática que a pesquisadora Marisa Lajolo, diante do desafio de dizer O que é literatura (1982), volume da Coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, em vez de responder de pronto a questão tão complexa, opta por convidar os seus inexperientes leitores a um percurso a partir da Grécia antiga. E alerta:

Não dá para pegar o bonde andando, que o tombo é quase certo. E os ingressos – livros, cursos, escolas – nem estão por aí, nem são oferta grátis. Custam exatamente o que custa pertencer à classe dominante ou, pelo menos, ter acesso a suas formulações culturais (Pág. 22).

Ao longo de toda a viagem, a autora abre vários e regulares parênteses, para fazer ressalvas como esta (Pág. 49):

Se muitos documentos registram o que Horácio pensava da poesia, onde estão os documentos que registram o que pensavam dela a mulher e os escravos do poeta?

Onde o outro lado da janela?

De um lado, os nobres e senhores de terra; de outro, os plebeus e os servos. De um lado, a elite letrada; de outro, a tradição oral, os cantos de trabalho, as narrativas populares... (Pág. 58). Mas, depois da vitória política da burguesia, na França de 1789 (Pág. 68), é o livro de bolso, os poemas na música, os fascículos de banca, os grafiti de parede (Pág. 69).

Pode-se dizer que Nei Lopes, por exemplo, ele mesmo um autor carioca que trafega entre o mundo do samba (literatura de rua, de fundo de quintal) e o da literatura, digamos, canônica (dos salões engalanados), é resultado desse fenômeno que quebra as barreiras separatistas. No texto introdutório do seu Dicionário literário afro-brasileiro (2007), ele diz estender o conceito de literatura aos campos da Ensaística, da Linguística, da História, da Oratória etc, além da moderna teledramaturgia, este último campo certamente soando como uma heresia dentro dos círculos literários mais destituídos de jogo de cintura.    

A propósito, Negro ou afro não tanto faz

Mas nos comportamos como se tanto fizesse, razão pela qual o escritor Cuti usou a afirmação acima para intitular um dos capítulos do seu livro Literatura negro-brasileira (2010), que ele chamou, na dedicatória que fez no exemplar por mim adquirido, de provocação classificatória, no intuito de problematizar.

É importante que sejamos sempre sacudidos por provocações assim problematizadoras e construtivas, especialmente neste momento em que a questão racial ganha projeção nacional. Fenômenos como o debate das cotas raciais e do racismo veiculado pela obra de Monteiro Lobato levaram a manifestações antes impensáveis, provinientes de setores que fingiam ignorar um problema que é de todos os brasileiros, referindo-se ao tema como o problema do negro, um lado e outro da janela bem separados e distantes.

Ao longo dessa viagem da inteligência humana, os discursos, sejam eles construídos por negros ou não negros, por intelectuais ou gente do povo, não têm feito distinção entre expressões como “mulato”, “afro-descendente” e “mestiço”, uma e outra aparecendo muitas vezes no mesmo parágrafo. Nas abordagens da Impresa sobre os relatórios do IBGE, por exemplo, que tecnicamente classifica os grupos raciais brasileiros como preto, pardo, amarelo e branco, é comum encontrar matérias que denominam os pretos de negros, separando estes dos pardos ou mulatos e levando a crer que os negros constituem uma minoria numérica.

Sabemos, entretanto, que, no cotidiano brasileiro, um negro é sempre considerado negro, seja ele preto ou pardo. Nesse sentido, o livro de Cuti funciona como uma importante recolocação dos pingos nos is, inclusive no que diz respeito aos termos “preconceito”, “racismo” e “discriminação” – devidamente explicados pelo autor, na página 25 – tantas vezes utilizados como sinônimos.

Em 1985, um ano depois que uma serendipidade fez com que eu me deparasse com os poetas e as poetas do grupo Quilombhoje-literatura, e em que pela primeira vez em minha vida fui desafiado a me manifestar sobre o processo em que acabara de mergulhar, sendo convidado a produzir um de oito ensaios sobre a literatura feita por negros no Brasil, intitulamos o resultado daquele conjunto de textos de Reflexões sobre a literatura afro-brasileira, livro publicado pelo Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo, um dos primeiros órgãos governamentais brasileiros dedicados à questão.

Mais de 25 anos depois, o prefixo “afro” continua sendo indiscriminadamente usado como sinônimo de negro, mulato e mestiço, acomodados que estamos em relação a tais conceitos.  Exemplo disso é a ocorrência desses usos mesmo em iniciativas de vanguarda, como é o caso do dicionário literário de Nei Lopes e do depoimento de Sueli Carneiro, doutora em Educação, diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, citado num artigo sobre o tema, publicado no site literafro.com.br, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG):

 A expressão afro-descendente resgata toda essa descendência negra que se dilui nas miscigenações, desde a primeira miscigenação que foi o estupro colonial, até as subseqüentes, produto da ideologia da democracia racial. A expressão resgata a negritude de todo esse contingente de pessoas que buscam se afastar de sua identidade negra, mas que têm o negro profundamente inscrito no corpo e na cultura (Págs. 4 e 5).

 (Literatura e Afro-descendência, de Eduardo de Assis Duarte)

 Se quisermos extrapolar o circuito da militância negra ou dos estudos acadêmicos, podemos ainda lembrar Roberto Pompeu de Toledo, articulista da conservadora revista Veja, que, em sua coluna de 14 de julho de 2004 (Pág. 126), escreveu:

O debate mais justo que se instalou no país nos últimos meses foi o das cotas para estudantes negros nas universidades. (...) Já que, pela via das cotas, aflorou o debate sobre a discriminação, não custaria ampliá-lo para setores como os restaurantes e as lojas chiques onde, Brasil afora, não se percebe pele negra entre os funcionários. Só deveria ser proibido, nessa história toda, chamar os negros de “afro-descendentes” ou “afro-brasileiros”. (...) A expressão “afro-descendente”, ao contrário do que imaginam seus adeptos, tem duplo caráter discriminatório. Supõe que chamar de “negro” seja feio, em primeiro lugar. E, em segundo, sugere que os “afro-descendentes” (ou, pior, os “afro-americanos”, ou “afro-brasileiros”) sejam menos americanos do que os só chamados de “americanos”, no caso dos EUA, e, no nosso caso, que sejam menos brasileiros do que os chamados só de “brasileiros”.

Cuti, em seu livro já citado, faz então uma reciclagem do próprio repertório, uma vez que produzira um daqueles oito ensaios afro-brasileiros, e segue linha de raciocínio semelhante à de Pompeu de Toledo:

Denominar de afro a produção literária negro-brasileira (dos que se assumem como negros em seus textos) é projetá-la à origem continental de seus autores, deixando-a à margem da literatura brasileira, atribuindo-lhe, principalmente, uma desqualificação com base no viés da hierarquização das culturas, noção bastante disseminada na concepção de Brasil por seus intelectuais. “Afro-brasileiro” e “afro-descendente” são expressões que induzem a discreto retorno à África, afastamento silencioso do âmbito da literatura brasileira para se fazer de sua vertente negra um mero apêndice da literatura africana. Em outras palavras, é como se só à produção de autores brancos coubesse compor a literatura do Brasil (Págs. 35 e 36).

O fenômeno transcende o universo literário. Basta considerar a hipótese de que ser negro em qualquer parte do mundo é bem mais revolucionário, pela referência planetária que tal identidade possibilita, do que ser afro-descendente ou afro-brasileiro. 


 

Referências:

LAJOLO, Marisa. O que é literatura. São Paulo: Brasiliense, 1982.

LOPES, Nei. Dicionário literário afro-brasileiro. São Paulo: Pallas, 2007.

CUTI. Literatura negro-brasileira. São Paulo: , 2010.

AUTORES, Vários. Reflexões sobre a literatura afro-brasileira. São Paulo: Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, 1986.

www. literafro.com.br.

Revista Veja – 14 de julho de 2004.



26/05/2013 - Abilio Ferreira
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